Marta Peral Ribeiro

Marta Peral Ribeiro
– Consultora de Comunicação –

É possível construir bons hábitos?

Na era em que estamos, é inevitável o acesso das crianças ao espaço digital. Por isso mais vale encarar a realidade e antecipar-se, em vez de as deixar mergulhar por conta própria na internet.

Marta Peral Ribeiro
– Consultora de Comunicação –

É possível construir bons hábitos?

Na era em que estamos, é inevitável o acesso das crianças ao espaço digital. Por isso mais vale encarar a realidade e antecipar-se, em vez de as deixar mergulhar por conta própria na internet.

Um panorama sobre a relação das crianças com as tecnologias

Alguns dados que conhecemos…

  • No geral, as crianças passam pelo menos 2 horas por dia em frente aos dispositivos móveis, sendo que a tendência é aumentar à medida que crescem;
  • A maioria das crianças (5-12 anos) usa o smartphone e o tablet como aparelho, tendo muitas vezes o seu próprio;
  • As principais atividades são: jogar, ver vídeos, ouvir música;
  • A partir dos 10 anos, começam também a comunicar com os amigos e a pesquisar perfis populares nas redes sociais;
  • Em Portugal, muitos pais não sabem ao certo o que os filhos fazem na internet.

Como é uma interação saudável com o mundo digital?

Uma interação com os media é saudável quando a tecnologia é usada de forma consciente, sem pôr em causa a sua saúde mental ou física – seja a nossa ou a dos outros.

No caso das crianças em concreto, significa que os aspetos fundamentais que favorecem o seu desenvolvimento salutar (conexão positiva com os adultos, brincadeira que estimule as capacidades cognitivas, coordenação motora) não são colocados em causa devido ao uso das tecnologias.

Finalmente, é necessário garantir um equilíbrio entre o tempo que passam online e a atividade física.

Quando é que deixa de o ser?

No geral, a maioria das crianças consegue lidar razoavelmente bem com a tecnologia. O problema é que algumas crianças estão mais propensas aos efeitos dos media:

  • Alteração do sono

O brilho da luz azul que emana dos ecrãs, diretamente nos olhos, afeta a glândula pineal, no cérebro, prejudicando a produção de melatonina. Esse é o principal motivo pelo qual o sono fica afetado, seja por ser insuficiente ou por ser um pouco revigorante.

No entanto, os próprios conteúdos tendem a produzir um excesso de estímulos, gerando stress que afeta o sono.

  • Obesidade

Pelo tempo que ficam inativas quando estão em frente ao ecrã, as crianças carecem de atividade física, ganhando peso.

Também se verificou que as crianças são mais suscetíveis à publicidade que visualizam (muitas vezes relacionada com doces e snacks), preferindo esse tipo de alimentos – além de ficarem distraídas a comer sem limites.

  • Autismo, ansiedade e déficit de atenção

As crianças com comportamentos desafiantes, com ansiedade, déficit de atenção ou autismo são mais vulneráveis aos efeitos negativos das tecnologias. Sobretudo quando visualizam cenas de violência.

Ironicamente, são também os que geralmente passam mais tempo com os gadgets (possivelmente por serem os que requerem mais atenção e a forma mais eficiente de os manter quietos).

  • Dependência

A esfera digital está feita para ser aditiva, com base no que se conhece do funcionamento do cérebro.

Os próprios aparelhos estão desenvolvidos para nos dar uma experiência agradável: são fáceis de manipular, geralmente portáveis, rápidos. Por sua vez, as Apps são intuitivas e feitas para que as crianças (e adultos também, como sabemos) se distraiam durante horas, ao longo de dias.

Quando a relação com os pares ou com a família fica afetada, quando o desinteresse pela escola e outras atividades aumenta, é hora de parar.

Outro sinal de alerta é quando a criança tem uma reação explosiva quando lhe é tirado o tablet (ou que dispositivo for) das mãos.

Existe uma idade mais apropriada para utilizar as plataformas digitais?

Não propriamente. Mas quanto mais tarde, melhor.

Sobretudo quando uma criança pede um smartphone ou um tablet, a regra de ouro é já ter responsabilidade para os usar. Por exemplo, implica não o perder, não o partir, saber quando precisa de o carregar e usá-lo sob as condições acordadas com os pais.

De resto, vale a pena ponderar o valor efetivo das tecnologias:  quanto e quais é que contribuem de facto para o desenvolvimento da criança? Algumas contribuem, como quando ouvem histórias ou jogam em plataformas didáticas, mas muitas são totalmente desnecessárias.

O que tudo isto significa para os pais?

A presença e o papel ativo do adulto

Sobretudo nos primeiros 12 anos, a maior influência que as crianças têm na sua interação com as tecnologias vem dos próprios pais.

Por exemplo, se passamos demasiado tempo em frente à TV ou com os gadgets, se expomos frequentemente selfies ou fotografias dos filhos nas redes sociais, é expectável que eles venham a fazê-lo com a mesma naturalidade.

Manter a presença, não só fisicamente como pelo acompanhamento da criança na utilização dos dispositivos, é crucial para os hábitos saudáveis no digital.

Além disso, o facto de partilhar com a criança as ações que costuma fazer no smartphone ajuda-a a perceber para que serve –pagar uma conta, verificar a meteorologia, pesquisar uma tradução, etc. Esta abordagem transmite à criança não só transparência como uma utilização consciente do que está a fazer.

Confiança e literacia digital

É irrelevante incitar medo às crianças sobre os perigos da internet, ou fazer de conta que a tecnologia não existe.

Ao contrário de muitos de nós, que vimos a internet e os gadgets entrar nas nossas casas a pouco e pouco, a nova geração já nasceu num ambiente digital. Inevitavelmente os seus comportamentos serão diferentes.

A propósito, agora que o ensino online é uma realidade, é mesmo necessário, ainda que requeira dos pais algum tempo (que não têm), explicar passo a passo como é que funciona o Word ou as plataformas digitais.

Mas essa é a maneira mais eficaz de ajudar a criança a usar a tecnologia de forma inteligente: partilhando conhecimento, lado a lado, mostrar o que pode aprender, como pesquisar, que sites são fiáveis, etc.

Questões de segurança

Não importa apenas o que é que os filhos aprendem através das tecnologias. Também é uma preocupação o que é que os media digitais possam conhecer sobre os nossos filhos e o seu comportamento online, e o que farão com essa informação.

  • Acesso a conteúdos ou Apps

A criança deve sempre solicitar a autorização dos pais para fazer downloads de Apps. Além disso, existem funcionalidades associadas ao controlo parental que permitem limitar os conteúdos a que acedem e gerir o tempo de utilização da App.

  • Garantir a Privacidade

Ensine-os a criar passwords fortes e a identificar uma rede WiFi segura – saberão se, ao acederem a uma rede, for solicitada uma senha WPA ou WPA2.

  • “Uma vez na internet, para sempre na internet”

É fundamental que as crianças compreendam que mesmo quando publicam algo visível apenas para alguns amigos ou mesmo em privado através de chat, permanecerá na internet e pode inclusivamente ser visto por pessoas com habilidades para o fazer.

  • Definir o controlo parental

Limite o acesso dos mais novos a conteúdos específicos da web usando o controlo parental. Existem configurações e aplicações para esse efeito, tais como:
Family Link, disponibilizada pela Google (sistema Android);
Controlo de downloads e compras na App Store, disponibilizado pelos próprios dispositivos Apple (sistema iOS);
– App Dashlane: a finalidade é proteger as passwords e demais dados digitais que possam ir parar à dark web, bastando fazer um único login (na conta Dashlane) para aceder a qualquer site ou App em vez de fazer login para cada um. Esta App tem um plano familiar, para que haja maior controlo parental.

Criar hábitos saudáveis no digital

Estabelecer o tempo de ecrã

Ecrã do telemovel com o tempo de uso

Quem já consultou a configuração “tempo de ecrã”, que regista o tempo que passamos de smartphone ligado, constatou que a percepção que tem desse tempo é desfasada da realidade. Porquê?

Porque quando estamos a navegar na internet perdemos a noção do tempo – especialmente em períodos de confinamento, cuja interação é comprovadamente superior. Por isso, estabeleça limites de tempo de utilização no menu das definições do dispositivo.

Antecipar os acontecimentos

Esteja preparado/a quando os seus filhos ou alunos vierem fazer-lhe perguntas. Quando vê que o adulto está familiarizado com o mundo digital e que sabe usá-lo de forma consciente e segura, a criança entende que pode contar com o adulto.

Dedique tempo a conhecer a App, jogo ou website a que as crianças querem aceder, estudando as suas configurações e limitando alguns acessos que sejam desnecessários ou inadequados.

Penso, logo filtro

É saudável incutir um pensamento crítico.

Muitas vezes as crianças não sabem filtrar o que veem, não conseguindo distinguir, por exemplo, quando se trata de publicidade. Imediatamente clicam e aceitam tudo o que aparece. Porque são curiosos por natureza, e os publicitários sabem-no bem.

Portanto, é saudável incutir um pensamento crítico, ensinando a criança a distinguir conteúdo orgânico do conteúdo patrocinado e conversando sobre a importância (ou não) do número de “gostos” ou de seguidores que se tenha, como exemplos.

Finalmente… não subestime as crianças

Apesar de ser fictício – e por isso, um tanto exagerado – um dos aspetos que vemos no filme “Chef” é a destreza com que uma criança de 10 anos se movimenta na esfera digital – nomeadamente nas redes sociais. Filho de um chef que recentemente inaugurou um food truck, publica diariamente no Twitter os lugares por onde vão passar, marcando a sua localização para que os consumidores os encontrem.

Cena do filme Chef

Cena do filme Chef

Qualquer semelhança com a realidade não é uma total coincidência. Há muitos casos que revelam que são os filhos a ensinar aos pais como lidar com as tecnologias – nomeadamente na atual circunstância em que os pais estão em teletrabalho.