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Ana Mendonça Morais
– Marketing & Communication Strategist –

As fake news (notícias falsas) andam na boca do mundo. E não é só porque existem imensas acusações, fundamentadas ou não, de fake news. É mesmo porque as fake news são uma autêntica praga – elas disseminam-se a uma velocidade estrondosa. Andam, literalmente, de boca em boca. De dispositivo em dispositivo. Atrevo-me até a dizer que são um vírus do digital, qual cavalo de Tróia.

Neste artigo vamos perceber o que são, ao certo, as fake news e explorar alguns dos seus melhores (ou piores?) exemplos, assim como as suas consequências. E, claro, ver de que forma podemos identificar estas notícias falaciosas – ou, em bom português, como separar o joio do trigo.

Ana Mendonça Morais
– Marketing & Communication Strategist –

As fake news (notícias falsas) andam na boca do mundo. E não é só porque existem imensas acusações, fundamentadas ou não, de fake news. É mesmo porque as fake news são uma autêntica praga – elas disseminam-se a uma velocidade estrondosa. Andam, literalmente, de boca em boca. De dispositivo em dispositivo. Atrevo-me até a dizer que são um vírus do digital, qual cavalo de Tróia.

Neste artigo vamos perceber o que são, ao certo, as fake news e explorar alguns dos seus melhores (ou piores?) exemplos, assim como as suas consequências. E, claro, ver de que forma podemos identificar estas notícias falaciosas – ou, em bom português, como separar o joio do trigo.

Fake news – o que são?

As fake news são, essencialmente, falácias apresentadas como verdades em formato de notícias.

Portanto são notícias que se apresentam como objectivas, credíveis e factuais, não o sendo realmente. Ainda assim, as fake news não são necessariamente falsas na sua totalidade. Podem ser notícias aparentemente reais mas que também incluem desinformação, omissão de informação ou enviesamento da verdade na forma como são apresentadas.

Podemos considerar que sempre existiram, na medida em que a mentira e a desinformação sempre existiram também. Não são exclusivas da era digital – sempre fizeram parte de propaganda política, por exemplo. No entanto, hoje conseguem chegar a mais pessoas, mais longe mais rapidamente.

A realidade em Portugal

No início de 2020 foi feito um estudo que nos deu algumas indicações gerais sobre consumo de notícias em formato digital em 40 países, sendo um deles Portugal – o Reuters Digital News Report 2020.

Este estudo indica que, dos 40 países analisados, Portugal é o segundo país mais preocupado com a legitimidade dos conteúdos digitais. Pelo menos é o que dizem 76% dos inquiridos. E quanto à origem da desinformação? Numa resposta de escolha múltipla:

  • 40,1% diz-se preocupado com desinformação vinda do governo, políticos ou partidos políticos
  • 40,4% diz-se preocupado com desinformação vinda das redes sociais em geral
  • 34,5% diz-se preocupado com desinformação vinda do Facebook em particular
  • 22% diz-se preocupado com desinformação vinda de sites noticiosos ou apps

Existem outras origens a ser consideradas, que podem ser consultadas no próprio relatório, mas estas são as mais relevantes.

Por outro lado, e segundo o mesmo estudo, os portugueses são os que mais confiam nas notícias, a par com a Finlândia – 56% dos inquiridos diz ter confiança nas notícias nacionais. Curiosamente, na maior parte das vezes, têm mais confiança nas notícias que consomem activamente (59,4%) do que nas notícias em geral (56,5%).

gráfico sobre os países que confiam em notícias

Ou seja… a confiança parece tendenciosa. Considerando os resultados deste estudo, os portugueses confiam particularmente mais naquilo que lhes interessa ou que mais capta a atenção do que nas notícias no geral. E aqui está a porta aberta para as fake news, que são também elas tendenciosas e, muitas vezes, sensacionalistas. E com as fake news vêm as consequências, de que falaremos mais à frente.

Também a Deco Proteste realizou um inquérito para perceber de que forma os portugueses vêem as notícias falsas. Das 1006 respostas válidas foi possível constatar que 58% dos inquiridos identificam frequentemente notícias falsas nas redes sociais. 41% identifica informações falsas em revistas “cor de rosa” e em apps de mensagens, como o WhatsApp. Embora em menor percentagem, também identificam notícias falsas jornais online e blogs, jornais ou revistas impressos ou programas de televisão (inclusive noticiários), o que põe em causa o bom jornalismo que se faz em Portugal.

Só a rádio teve uma percentagem menor, com apenas 6% dos inquiridos a afirmar que identificam com frequência notícias falsas. Isto pode significar que as rádios são menos propensas a espalhar notícias falsas. No entanto, também pode simplesmente dizer-nos que os portugueses não prestam tanta atenção às notícias na rádio – ou nem sequer consomem rádio. Neste caso, não é uma variável que possamos analisar.

A verdade é que 77% dos inquiridos acreditam que a propagação de fake news é um perigo para a democracia. No que toca a punições, 75% acreditam que os meios de partilham notícias falsas deveriam ser alvo de multas pesadas e 70% defende que os jornalistas que escrevem notícias falsas devem ser punidos.

Os melhores (ou piores) exemplos e as suas consequências

O caso do 5G

A polémica do 5G e das notícias falsas já foi abordada neste artigo, mais particularmente na secção “A ligação ao COVID-19 e os actos de vandalismo”, mas recordo o tema mais uma vez. Resumidamente, o Twitter foi o rastilho para a propagação de uma teoria da conspiração: o novo vírus coincidia com o aparecimento da rede 5G. Mas… seria apenas uma coincidência? Muitas pessoas acharam que não e, por isso, assumiram que o COVID-19 era uma consequência nefasta da rede 5G. Aliás, no Reino Unido, dezenas de estruturas de telecomunicações 5G foram incendiadas como protesto e suposta defesa.

As mensagens de voz de médicos no Whatsapp

Com o aparecimento do COVID-19 em Portugal, apareceram também muitos “médicos de bancada”. São como os treinadores de bancada, que passam os jogos a mandar bitaites, mas aqui assumem-se como médicos. Têm sempre mais conhecimento do que os restantes, acesso a informação privilegiada e sabem todos os truques para proteger a população. E, especialmente em Março de 2020, o WhatsApp estava cheio destes médicos e de áudios gravados por eles.

Mas, na verdade, nunca conseguimos confirmar quem são realmente estes médicos. Não sabemos nomes, onde trabalham, nem a sua especialidade. Nunca conseguimos comprovar a sua identidade e isso, só por si, é um sinal de alerta.

Se já era frequente a propagação de fake news antes, com o aparecimento de uma pandemia ainda piorou mais.

Desde o início que vimos, diariamente, notícias que não se confirmam verdadeiras. Alarmismos, teorias da conspiração, falsos testemunhos. Tudo isto tem tido espaço de antena ao longo do último ano. E a velocidade com que se obtém informação, a velocidade a que esta muda e a velocidade a que se espalham as notícias só têm contribuído para uma receita explosiva de desinformação.

The Social Dilemma – um documentário sobre a realidade das redes sociais

As notícias verdadeiras demoram 6 vezes mais a alcançar 1500 pessoas, em comparação com as notícias falsas.

O documentário The Social Dilemma mostra-nos as consequências das nossas acções nas redes sociais. E dá-nos vários exemplos do papel das redes sociais na propagação de notícias falsas, como o caso Pizzagate nos EUA. A informação que circulava, especialmente no Facebook, era que as pizzarias serviam de rede de tráfico humano, mais particularmente de crianças, que eram mantidas em caves por baixo dos restaurantes. Um homem chegou a entrar armado numa pizzaria para salvar as crianças da cave – que nem existia. O mais curioso é que era o próprio Facebook a fazer esta informação chegar às pessoas, sem que elas a procurassem activamente. Os seus algoritmos sugeriam grupos relacionados com o tema a quem pudesse ter interesse no mesmo de acordo com as análises que o próprio Facebook faz aos perfis dos utilizadores.

É claro que este é um caso que culminou em exagero, o que nem sempre acontece. Também é certo que redes similares podem existir. Afinal, o tráfico humano é ainda hoje um assunto muito real e que sem dúvida acontece diariamente. No entanto, este caso em particular não tinha qualquer fundamento, nem foi feito nenhum trabalho de verificação da informação.

Este documentário também refere um estudo realizado em 2018 pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), que nos dá alguns dados interessantes. Segundo este estudo, as informações falsas são partilhadas com mais frequência, velocidade, preponderância e alcance do que as verdadeiras.

Aliás, o estudo refere particularmente que, no Twitter, as fake news têm mais 70% de probabilidade de serem partilhadas (retweeted) do que as notícias verdadeiras. E que as notícias verdadeiras demoram 6 vezes mais a alcançar 1500 pessoas, em comparação com as notícias falsas.

Como identificar e filtrar fake news

O primeiro passo para perceber a fidedignidade de qualquer notícia é ler toda a informação. Não vale ler apenas o título ou o lead (o pequeno resumo inicial), visto que muitas vezes estes são propositadamente chamativos – e por vezes até enganadores. É o chamado “clickbait”, um chamariz para gerar mais cliques, alcance e, no fundo, receitas.

O segundo passo é perceber a origem das informações partilhadas. Foram publicadas por alguma fonte credível ou não se sabe a sua origem? Existem fontes reais? Dependendo do tipo de notícia, há estudos, testemunhas ou declarações oficiais que a suportem? É importante recordar que um artigo de opinião não é uma notícia – embora também estes devam ter algum tipo de fundamento e suporte.

Por isso, é importante sermos exigentes com as notícias para perceber a sua origem e credibilidade.

O terceiro e último passo será a pesquisa. Nada como ver se aquele tema específico já foi abordado por outros meios, assim como quais, quando e o que foi dito. Se não for uma notícia exclusiva de Portugal, convém que a pesquisa seja em inglês para haver mais resultados de pesquisa. Um último conselho é até pesquisar o tema com vários termos diferentes que apelem à sua confirmação ou desconstrução. Por exemplo, se quisermos saber mais sobre as eleições presidenciais, podemos tentar pesquisas como “a verdade sobre as eleições presidenciais”, “mentiras nas eleições presidenciais” ou “esquemas nas eleições presidenciais”. Isto pode levar-nos a descobertas que de outra forma não saberíamos e também desmascarar algumas fake news.

Torne-se um caçador de fake news

Se pretende tornar-se um “detective profissional” na identificação de fake news, pode sempre rever o conteúdo do curso Fake News – não se deixe enganar. Este curso gratuito foi disponibilizado pela NAU, uma plataforma de formação online para grandes audiências gerida pela Unidade FCCN da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Embora o curso esteja arquivado, os conteúdos estão disponíveis para consulta. É ideal para quem trabalha na área da comunicação e dos media.

Em suma, a melhor forma de nos protegermos e de termos uma maior certeza quanto à informação que nos chega, é tendo um sentido crítico. Nunca devemos tomar nada como uma verdade absoluta, muito menos à primeira vista. Questionar e pesquisar é crucial para obter mais conhecimento. Só assim conseguiremos navegar este mundo, especialmente o digital, com maior confiança e convicção naquilo que consideramos correcto e verdadeiro.