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Marta Peral Ribeiro

Marta Peral Ribeiro
– Consultora de Comunicação –

A experiência do utilizador da terceira idade ou com deficiência

Trabalhar, falar com amigos e família, comprar produtos, ler e ouvir notícias, ver vídeos, ouvir podcasts, pagar contas, assinar petições, tirar cursos, concorrer a um novo emprego, entre outras, são ações que fazem parte do dia a dia da maioria de nós. Mas não é a realidade de muitos outros, que não sabem como utilizar os equipamentos digitais ou não conseguem devido a alguma incapacidade física.

Marta Peral Ribeiro
– Consultora de Comunicação –

A experiência do utilizador da terceira idade ou com deficiência

Trabalhar, falar com amigos e família, comprar produtos, ler e ouvir notícias, ver vídeos, ouvir podcasts, pagar contas, assinar petições, tirar cursos, concorrer a um novo emprego, entre outras, são ações que fazem parte do dia a dia da maioria de nós. Mas não é a realidade de muitos outros, que não sabem como utilizar os equipamentos digitais ou não conseguem devido a alguma incapacidade física.

Segundo as estatísticas da Eurostat, Portugal está entre os países da Europa que apresentam as taxas mais baixas de acesso às tecnologias digitais, nomeadamente a internet.

Gráfico internet no agregado familiar

Tendo em conta que 20% da população portuguesa se encontra digitalmente excluída, significa que mais de 2 milhões de indivíduos não conseguem realizar autonomamente atividades básicas do quotidiano na esfera digital. Por exemplo, comprar produtos, utilizar serviços, subscrever newsletters, ler notícias, comunicar nas redes sociais, etc.

Dois dos motivos que conduzem à exclusão digital é a falta de competências tecnológicas e a existência de determinadas condições físicas que dificultam a navegação dos utilizadores na internet – ou mesmo quando estão offline.

O que é acessibilidade digital?

Segundo o World Wide Web Consortium, quando a acessibilidade está assegurada, todas as pessoas ficam aptas a “perceber, compreender, navegar e interagir com a web, e podem contribuir para a web”.

Portanto, a acessibilidade na web tem a ver com a possibilidade de qualquer utilizador aceder a qualquer conteúdo ou funcionalidade digital.

Incluindo as pessoas com determinadas condições físicas, tais como deficiência visual, auditiva ou motora. Ou pessoas idosas, cujas habilidades vão gradualmente diminuindo.

Ou seja, não é uma questão de não terem os equipamentos digitais, mas sim a sua capacidade de os usar.

Acessibilidade como fator de inclusão

Se o acesso à informação é um direito universal, por que hão de alguns ficar privados do mesmo?

A inclusão digital é uma condição para a participação na sociedade, incluindo na política e na economia. Sobretudo desde o ano passado, esta questão tornou-se ainda mais urgente, devido à pandemia e todas as suas implicações.

Mas o facto é que poucas são as plataformas digitais que cumprem totalmente os requisitos da acessibilidade – incluindo o website da DGS.

O idoso de hoje é ativo

Num contexto extremamente tecnológico, os mais velhos precisam de manter a habilidade de comunicar por via digital.

A população portuguesa pode estar envelhecida (e as projeções do Instituto Nacional de Estatística preveem que em 2080 o índice de envelhecimento em Portugal praticamente duplicará), mas tenhamos presente que o idoso de hoje em dia é ativo e a sua presença no mercado laboral é uma realidade.

Tal significa que os mais velhos precisam de competências digitais para poderem comunicar com a família com quem não podem estar, assim como para procurar trabalho na internet, criar um CV no Word e enviá-lo por e-mail. Entre tantas outras facilidades que podem e querem ter.

A deficiência auditiva e a literacia

Uma das maiores dificuldades com que as pessoas com deficiência auditiva se deparam diz respeito à literacia – particularmente as crianças pequenas, cuja aquisição da linguagem depende da interpretação gestual.

Sem a linguagem gestual, a criança dificilmente consegue associar a palavra escrita à sua representação conceptual.

Os cegos também usam smartphones e computadores

Steve Saylor é um Youtuber americano amante dos videojogos, não obstante a sua séria deficiência visual. Praticamente cego, Steve partilha os vídeos em que está a jogar e responde também à pergunta plausível de outros utilizadores: “Como é que um cego pode ser gamer?”.

Eis como uma pessoa sem deficiência visual vê o jogo:

Jogo de videogame

Mas Steve, tal como outras pessoas com reduzida visão, veem assim:

como um cego vê um jogo de videogame

O papel dos UX designers e a interação entre utilizadores e marcas

A evolução da Inteligência Artificial tem sido fundamental na criação de novas funcionalidades tecnológicas. No entanto, o papel dos UX designers é fulcral e está na base da pirâmide da acessibilidade.

O trabalho dos UX developers é fundamental, pois um website bem construído, com um fluxo intuitivo, determina a sua acessibilidade. Ao desenhar um site, o designer pode adotar princípios simples, tais como:

  • Apresentar ações através de ícones em vez de cores, facilitando a navegação a quem tenha daltonismo.
  • Disponibilizar a ativação de funcionalidades como a lupa (zoom), legendas automáticas, transcrições e descrições em áudio para quem tenha deficiência visual ou auditiva, nomeadamente nas redes sociais.

Quanto mais acessibilidade um site oferecer, mais elevado será o tráfego.

Podemos então constatar que, além da questão social, a exclusão digital representa uma questão premente para as marcas, cujos produtos e serviços podiam estar a ser vendidos, não fosse a falta de acessibilidade e/ou de habilidade digital para os adquirir.

Interfaces intuitivos que melhoram a experiência do utilizador

Ferramentas de acessibilidade

Ainda que as ferramentas de acessibilidade sejam indispensáveis para quem tem alguma incapacidade física que limite a sua navegação, são úteis para todos os utilizadores – inclusive a nível offline.

O utilizador pode proativamente procurar as opções de acessibilidade no menu das “Definições” do próprio smartphone ou tablet. Estas estão geralmente categorizadas por sentidos (visão, audição, físico/motor):

icone de acessibilidade no smartphone

Software de Voz

A voz é um recurso cada vez mais usado nos media.

As interfaces de voz facilitam bastante a navegação de invisuais e de pessoas sem mobilidade nas mãos, porque quase não requerem nem o olhar nem o toque, basta falar.

Na prática, são assistentes virtuais que respondem a comandos simples, tais como apresentar resultados de uma pesquisa feita por voz ou facilitar o fluxo de acesso no menu do dispositivo.

Para isso, a interface tem de indicar de forma concisa, sem excesso de opções, as possibilidades e os comandos que o utilizador tem à disposição.

Exemplo: Acessibilidade por números

A Apple criou uma funcionalidade em que o utilizador, em vez de ditar cada ação, apenas tem de indicar o número correspondente a essa ação. Afinal, dizer um número é mais simples e rápido.

Depois de ativar o controlo por voz no menu de Acessibilidade, o utilizador diz «mostrar números» e a interface atribui um dígito a cada ícone ou campo, bastando seguir o fluxo para concluir as ações:

smartphone com números como acessibilidade

Atalhos do teclado

Há comandos do teclado que podem ser incorporados aos componentes do sistema, articulando com as teclas principais (espaço, control, enter, tab, setas) para que o utilizador possa aceder um link, intercalar entre botões, etc.

O objetivo é não haver uma dependência do teclado ou do rato.

Por exemplo, no Windows existem estas possibilidades, entre outras:

atalho do teclado do windows

Funcionalidades para o ecrã

Teclado braille

Dispensa um teclado braille físico e o utilizador pode inserir caracteres braille digitando 6 pontos no ecrã, seja com o ecrã na sua direção ou com o dispositivo voltado para fora:

Teclado braille

Aumentar o tamanho da letra ou da página (Zoom)

Nem todos os sites permitem aumentar o tamanho da página ou da letra. Cabe aos UX designers verificar se essas configurações do site estão ou não a bloquear, por defeito, essa funcionalidade.

Contraste e cores

Para pessoas cegas ou com visão reduzida, opções como ativar o «tema escuro», em que o fundo da página fica negro, ou ajustar o contraste e as cores, faz toda a diferença.

Por exemplo, se o utilizador estiver a navegar no Youtube, pode configurar o modo noturno alterando o “Aspeto” nas Definições do seu perfil.

No sistema Android pode-se ativar o «tema escuro» nas configurações do motor de pesquisa, acrescentando a extensão à barra de pesquisa.

Também é possível personalizar o dispositivo Windows 10, definindo o tema no menu inicial das configurações do plano de fundo:

painel escuro smartphone

Ou, se preferir, com cores:

painel smartphone com cores

Acessibilidade nas redes sociais

Enquanto marca, há mais diretrizes que podem ser tomadas para facilitar o acesso dos utilizadores nas redes sociais, nomeadamente:

Descrição das imagens

Plataformas como o Twitter ou o Instagram têm uma funcionalidade designada alt text (alternative text) que permite acrescentar a descrição por palavras de uma imagem.

No caso do Twitter, basta ativar essa funcionalidade no menu “Acessibilidade” (nas Definições), e, no momento de publicar a imagem, seleciona-se o botão “adicionar descrição”, onde se pode escrever o que representa aquela imagem.

smartphone com a descrição do twitter

Posteriormente, uma pessoa com deficiência visual poderá depois ouvir a descrição da imagem através da ferramenta de Voice over (Apple) ou TalkBack (Android):

como ativar leitor de texto

Já no caso do Instagram, no momento de publicar a imagem, depois de se aplicar ou não um filtro, surge a opção Definições Avançadas na parte inferior do ecrã, que contém a opção “Escrever texto alternativo”. No Instagram é possível acrescentar a descrição mesmo depois de se ter publicado a imagem.

Letras maiúsculas nas hashtags

Quando uma hashtag inclui várias palavras, torna-se mais compreensível para o leitor de voz (Voice over/Talk Back) distinguir as palavras nela contidas se o início de cada uma for apresentado por letra maiúscula.

A título de exemplo: se a hashtag for #weshouldallbefeminists for traduzida para voz, irá soar algo muito diferente de We Should All Be Feminists.

Transcrições nos vídeos

Especialmente para quem tenha deficiência auditiva, é útil se os vídeos tiverem uma transcrição. Mesmo para quem ouve bem, é muito mais fácil seguir um vídeo que está noutro idioma, ou quando existe um sotaque mais difícil se entender, quando é acompanhado por uma transcrição.

Canais como o Youtube ou o Facebook permitem atualmente carregar legendas ou transcrição para o vídeo à medida que o carregamos.

Existem também Apps, como o Aria ou o Clipomatic, que permitem adicionar legendas aos stories do Instagram. Ou seja, o vídeo é filmado na App, que reconhece a voz e automaticamente traduz o que está a ser falado.

Adicionar links aos conteúdos

Para os utilizadores é bastante mais fácil e rápido aceder a informações quando um vídeo ou outra publicação contém uma hiperligação (link) relativa ao que está a abordar, ao invés de terem de pesquisar de raiz pelos recursos ali mencionados.

StorySign – uma App para crianças surdas

Existe uma aplicação que possibilita a leitura digital de histórias a crianças surdas. Chama-se StorySign, da Huawei, e através da Inteligência Artificial e da Realidade Aumentada, permite a interpretação gestual das histórias.

Tendo o livro físico (disponível em Língua Gestual Portuguesa) e a App já descarregada, basta pesquisar o livro na Biblioteca StorySign e passar o smartphone por cima do livro físico. A Star (avatar) começa então a interpretar o texto do livro em língua gestual.

App para crianças surdas

Para além de permitir às crianças surdas «ouvirem» histórias, algo tão habitual para os seus pares, ensina-as a ler, permitindo-lhe relacionar as palavras com o seu conceito.

Conclusão

A inclusão digital não se limita, como vimos, a termos um computador ou smartphone, à preferência por Apple ou Android, à utilização de Facebook ou à subscrição da Netflix. Aliás, vai muito além do acesso à internet: tem a ver com a facilidade de utilizarmos as tecnologias em nosso benefício no dia a dia.

Mas para haver inclusão digital é necessário haver acessibilidade, garantindo que qualquer pessoa, independentemente da sua idade ou condição física, consiga facilmente utilizar os dispositivos tecnológicos. Essa acessibilidade começa na arquitetura das interfaces, assegurada pelos UX designers.

Em suma, a acessibilidade tecnológica é um direito de todos os cidadãos e também uma mais valia para as marcas, que assim podem alcançar mais clientes e, por outro lado, garantir o seu SEO.

Relembremos, finalmente, que a experiência do utilizador (UX) é das tendências mais crescentes no marketing, pelo que quanto mais ferramentas de acessibilidade um website apresentar, melhor será a interação do utilizador com a marca, o que irá potenciar as vendas.