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Ana Mendonça Morais
– Marketing & Communication Strategist –

COVID-19, EUA e segurança

Ah, por onde começar com a rede 5g… as histórias em torno desta tecnologia têm sido extensas, intensas e variadas. Da ligação ao COVID-19 aos actos de vandalismo, passando pelos EUA e as questões de segurança. Talvez o melhor seja começar por uma breve explicação do que é a tecnologia 5G. Depois, então, analisar as maiores polémicas do 5G. Ou serão as verdades? Nada temam – garanto que este artigo não será uma teoria da conspiração!

Em que consiste, afinal, a rede 5G?

A rede 5G é o mais recente resultado de uma evolução tecnológica de 40 anos. Surge 4 décadas após o lançamento da rede 1G. Esta é, assim, a quinta geração de rede móvel – e, claro, promete ser muito mais eficaz do que as anteriores.

As gerações anteriores

Cada geração de rede móvel tem apresentado diferentes avanços. Das chamadas de voz, na rede 1G, passamos também para as mensagens de texto na rede 2G. Já a rede 3G incluiu também o acesso à internet através de dados móveis. A rede 4G agregava tudo isto e ainda garantia acesso à banda larga móvel. E isto sem sequer mencionar as velocidades de conexão das redes, que em muito melhoraram. Aliás, o 4G poderia atingir 1Gbps por segundo, muito mais do que as redes anteriores – a velocidade do 1G era menos de 10Kbps. Para referências, as unidades de velocidade são, por ordem crescente, Kbps, Mbps, Gbps, onde a seguinte é 1000x mais rápida que a anterior. Assim sendo, 1Mbps corresponde a 1000Kbps e 1 Gbps corresponde a 1000Mbps.

As características do 5G

Podemos começar pela velocidade: o 5G tem uma velocidade mínima de 10Gbps. Isto significa um aumento de 10x em relação à velocidade máxima do 4G! Ou seja… é realmente rápida.

Mas há mais: o tempo de resposta dos aparelhos, após receberem uma ordem, é também inferior. Ou seja, a latência torna-se quase um não-assunto. Isto aplica-se a, por exemplo, electrodomésticos ou até carros eléctricos. Mas, claro, também a telemóveis. Imagine, por exemplo, que se avizinham 2h livres na sua agenda e que quer mesmo ver um filme no telemóvel. Graças a esta tecnologia, o download é feito em segundos! Numa altura em que somos cada vez mais impacientes, especialmente no digital, esta é uma grande vantagem.

Para além da velocidade, a rede 5G permite também uma maior conectividade. Tem uma capacidade maior para suportar vários dispositivos ligados à internet em simultâneo – cerca de 100, mais precisamente. Isto abre espaço para um melhor implementação da “Internet of Things”. A Internet das Coisas é, essencialmente, a conexão de objectos do quotidiano à internet. Um exemplo? Tomadas e luzes inteligentes em casa, totalmente controláveis através de uma app no telemóvel ou tablet.

A rede 5G promete facilitar e conectar as nossas vidas mais do que nunca. Acha que se esqueceu de alguma luz ligada em casa? Confirme na app e desligue-a. Está frio e quer a casa quente quando chegar? Ligue o aquecedor atempadamente através do telemóvel. Precisa de fazer um percurso curto na cidade e a bicicleta é uma boa opção? Encontre a mais próxima através de apps de aluguer.

No entanto, há quem receie que tanta conectividade tenha, na verdade, consequências graves. Tanto para a nossa liberdade como para a nossa saúde. Há quem questione em que medida é que a nossa privacidade está protegida e a nossa segurança garantida. Há quem acredite que este é só mais um passo para vendermos a nossa liberdade sem darmos conta – ou, pior, sem querermos saber. Quase como uma ideia de “Big brother is watching you”.

 

As maiores polémicas

A ligação ao COVID-19 e os actos de vandalismo

O início de 2020 viu chegar, à Europa, o que viria a ser uma pandemia mundial como resultado da propagação do COVID-19. O vírus, que teve origem na China, tomou de assalto o mundo inteiro. Nessa mesma altura circulavam, no Twitter, algumas mensagens que associavam este vírus ao lançamento da rede móvel 5G. Segundo esta teoria, os sintomas associados ao vírus eram, na verdade, causados pela rede 5G. E a quarentena nada mais seria do que um esquema para o governo implementar a rede mais facilmente.

Seria esta nova tecnologia a responsável pela propagação do vírus?

Faria tudo parte de um plano maior?

Ou seria apenas uma coincidência?

A verdade é que este foi um dos temas tendência da rede social e, embora não tenha qualquer base científica, captou a atenção de muitas pessoas através da hashtag #5GCoronavirus. Aliás, o tema teve tanta relevância que chegou a ser alvo de um artigo de investigação publicado no Journal of Medical Internet Research, que pode consultar aqui. Segundo o estudo, quase 35% dos tweets que incluíam a referida hashtag apoiavam esta teoria.

É certo que este assunto parece não passar de uma teoria da conspiração. Afinal, o que são os comentários nas redes sociais? Mas esta questão vai muito além de uma primeira análise. Toca num ponto fulcral para tomadas de posições e decisões: a informação. Sem informação não temos nada. Com informação podemos ter tudo. Mas o que acontece quando temos a informação errada, ou quando escolhemos apenas a que nos convém?

Além disso, isto põe também em causa a responsabilidade das próprias redes sociais. Por um lado, podemos considerar que as próprias plataformas devem garantir que conteúdos falsos não têm tracção, especialmente quando podem ter um impacto significativo. Por outro lado, podemos também ponderar até que ponto é que isso poderá ser censura e afectar a liberdade de expressão dos utilizadores. Mas este tema em particular ficará para outras festas.

Voltando ao Twitter: daqui, a teoria da conspiração passou para as ruas. No Reino Unido, dezenas de estruturas de telecomunicações 5G foram vandalizadas. Incendiadas, na verdade. Políticos e colaboradores de empresas de telecomunicações foram assediados e até ameaçados. E tudo em prol de uma “revolução” para combater os vilões. A teoria tornou-se, assim, num perigo físico iminente. O discernimento, esse, ficou esquecido algures entre uma rede social e a outra. Porque, na realidade, não existem evidências científicas sobre o impacto negativo destas tecnologias na saúde – muito menos num contexto de pandemia.

EUA e a questão da segurança

Segundo o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, a empresa chinesa Huawei é um perigo e uma ameaça para a segurança nacional dos EUA, devendo os seus componentes ser banidos do país. Mas a verdade é que a empresa representa a maior ameaça aos EUA no que toca a tecnologia sem fios. A Huawei está muito à frente no desenvolvimento tecnológico, nomeadamente no que ao 5G diz respeito. O que significa que, no fundo, a China está muito à frente.

Neste momento, a Huawei é a principal fornecedora de tecnologia utilizada para construir e desenvolver a rede 5G. Assim, se o 5G é o próximo passo e se os EUA não conseguem acompanhar a sua implementação – porque tem sido cara e ineficiente, como refere este artigo do The New York Times – os dispositivos do futuro terão todos componentes (e integrações) chinesas. Aí reside o perigo ainda maior aos olhos dos EUA.

Poderia o 5G tornar-se numa arma de espionagem na eterna luta de potências?

A verdade é que, aparentemente e por enquanto, não existem provas de que tal tenha acontecido. A Huawei negou uma conexão ao governo Chinês e reforçou que é uma empresa independente. Ou seja, supostamente não teria interesse político em desenvolver e distribuir componentes que pudessem ser utilizados para colocar em risco a segurança nacional de outros países. Mas a resposta a isto tem sido, maioritariamente, “prevenir é melhor do que remediar”.

Hoje, este tema já teve muitos mais desenvolvimentos e repercussões, inclusive na Europa. A Suécia, por exemplo, foi o mais recente país a banir os equipamentos Huawei da sua rede 5G, alegando motivos de segurança. O Reino Unido já tinha feito o mesmo há uns meses atrás. Pode ver uma cronologia relacionada às proibições sobre a Huawei neste artigo.

Em suma, um novo avanço tecnológico pode, e deve, levantar questões. Especialmente quando a sua aplicação é tão extensa quanto a do 5G. Esta tecnologia representa mais um passo para uma vida totalmente digital e dependente de tecnologia. É um suposto facilitador que, como podemos ver, não é tão simples assim.

Ao mesmo tempo que possa ser descabido associar esta tecnologia à pandemia mundial que atravessamos, é também importante tentar ver mais além. Perceber de que forma é que a tecnologia se integra no nosso dia-a-da e de que forma é que nos deixa livres ou privados do que quer que seja. Ver para além do óbvio. Questionar, ponderar e decidir se as vantagens compensam as possíveis desvantagens. Especialmente se a nossa segurança estiver em causa.

No fundo, até onde é que queremos ir e do que estamos dispostos a abdicar para lá chegarmos?